domingo, 3 de junho de 2012

Jornalismo é como sedução, diz Gay Talese


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ILUSTRADA EM CIMA DA HORA
Jornalismo é como sedução, diz Gay Talese
Nome fundamental do ofício no século 20, repórter veterano falou em São Paulo sobre seus métodos de trabalho
No país para Congresso Internacional Cult de Jornalismo Cultural, americano fez ontem palestra na Folha
IVAN FINOTTI
DE SÃO PAULO
Para o jornalista americano Gay Talese, o repórter é um sedutor que conquista seus personagens como um vendedor convence a clientela.
Talese, 80, ilustrou bem o que quer dizer, ontem, em uma palestra de uma hora e meia para jornalistas na Folha. No encontro, contou histórias de suas reportagens, como "Frank Sinatra Está Resfriado", e comentou seus métodos de trabalho.
Sem celular, notebook ou tablet, Talese anda com pequenos cartões para escrever o que vê ou precisa saber.
O veterano, que veio ao Brasil participar do Congresso Internacional Cult de Jornalismo Cultural, é considerado pai do "new journalism" (novo jornalismo), ou jornalismo literário, caracterizado por reportagens que se apropriam de técnicas da ficção.
É autor de livros como "O Reino e o Poder", sobre os bastidores do "New York Times", "Honra Teu Pai", sobre uma família de mafiosos, e "Fama e Anonimato", que reúne diversas reportagens.
Filho de um alfaiate de origem italiana, mostrou-se elegante como sempre, de paletó, colete e sapato verdes, e gravata amarela. Na cabeça, um chapéu branco, o único que trouxe para o Brasil. "Em minha casa, tenho 30", contou. Leia trechos a seguir.
LITERATURA
Quando era um menino na escola, lia contos, pequenos romances, e fiquei interessado nas narrativas. Mais tarde, me perguntei se eu poderia contar histórias, mas não com personagens imaginários, e sim reais. Não queria ser um repórter, mas contar histórias. Não precisava usar a imaginação, mas sim passar tempo com as pessoas.
Pessoas nem sempre contam a verdade. São cuidadosas, pois não conhecem o jornalista. Eu queria conquistar a confiança delas. E como fazer isso? Aos poucos.
Você conhece alguém na rede social, sai, almoça, passeia e ficam íntimos. Há um paralelo com o tipo de jornalismo que faço. Às vezes, nós, jornalistas, somos sedutores. E não quero ser o sedutor de uma noite só, mas sim um parceiro de uma relação.
JORNALISMO
Eu acho que jornalismo pode ser uma forma de arte.
Estudantes de jornalismo estão sempre reclamando que não têm emprego na área. Quando comecei, eu pegava sanduíches para o pessoal. Era o jeito de entrar.
Quem reclama que não tem tempo para um bom trabalho precisa arrumar esse tempo. Você não deve ser um repórter como qualquer outro. Tem que ter perseverança, ego e até arrogância.
Muitas vezes você escreve sobre pessoas famosas e não pode se sentir diminuído, como se estivesse falando com alguma pessoa extraordinária. Por isso, desde jovem me sentia importante.
LIÇÕES DE FAMÍLIA
Não tenho celular, não uso e-mail. Vou conhecer as pessoas. Minha atitude vem da minha família. Minha mãe tinha uma loja de vestidos e meu pai era alfaiate.
Aprendi com minha mãe: deixe as pessoas falarem, não as interrompa. Com meu pai: o que é feito à mão é melhor que o feito com máquina.
PERSONAGENS
Nunca quis escrever sobre notícias do dia, o que os economistas ou políticos disseram hoje. Queria escrever notícias não importantes, mas escrevia tão bem que saía no jornal.
Quero escrever sobre pessoas que não estão nas notícias. Elas refletem a sociedade e quero ser o cronista de suas vidas. No "New York Times", fiz de tudo para ficar longe dos famosos. Sugeria um monte de desconhecidos, e o editor dizia: "Quem se interessa?". Eu me interesso.
AUTOMÓVEIS
Uma vez fiquei um ano e meio num assunto para escrever um livro. Foi entre 1980 e 1981, era sobre a indústria automobilística. Viajei com um diretor da Chrysler, frequentei reuniões, fui até Tóquio. Mas decidi que não queria mais. Seria muito sensacionalista.
Escrevi sobre mafiosos. Escrevi sobre pervertidos. Eu os respeito porque não estavam se escondendo; mas o pessoal do automóvel não era o que dizia ser. E expô-lo seria sensacionalista.
VENDEDOR
Uma reportagem começa na curiosidade. Você decide escrever sobre algo. Por quê? Porque te deixa curioso.
Aí, precisa achar alguém e propor que ele colabore. Como? Com técnicas refinadas de vendedor.
É como vender um aspirador. Se a pessoa já tiver, insista para ela tentar o seu.
Sou polido, não forço a barra. Acredito que o que vou escrever tem valor, não é superficial. Chego na pessoa com boas maneiras, estou sempre de terno e gravata, não importa se é o presidente ou lixeiro.
Aqui, por exemplo, está todo mundo mal vestido, mas não é meu problema (risos).
REPORTAGEM
Você diz à pessoa que ela tem uma história significativa e pergunta se ela pode colaborar. Se ele estiver ocupada e tiver que ir ao dentista, você pergunta se pode ir com ela. Eu procuro situações. É a arte de sair com as pessoas.
MÉTODO
Não faço anotações enquanto a pessoa fala. Escrevo o nome, o dia, o local. Depois, no hotel, peço a máquina de escrever emprestada e escrevo tudo.
FIM DO IMPRESSO
Quando entrei no jornalismo, aos 20 anos, diziam a mesma coisa, diziam que a televisão ia acabar com o jornalismo impresso. "Está tudo na tela, para que ler no dia seguinte?".
Não acredito que vá acabar. Mas tem que ser de boa qualidade. Bons textos vão sobreviver porque são bons.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Jovens, desemprego e Brasil como exemplo (?)

São Paulo, segunda-feira, 23 de abril de 2012 Texto Anterior | Próximo Texto | Índice | Comunicar Erros Jovens buscam sonhos fora dos EUA Filhos de imigrantes buscam sonhos fora dos EUA Buscando a fortuna nos países que seus pais deixaram Por KIRK SEMPLE Samir N. Kapadia parecia estar em ascensão em Washington, passando de um estágio no Capitólio para empregos em uma fundação importante e uma consultoria. Mas sentia que seus dias tinham caído numa rotina. Enquanto isso, amigos e parentes seus na Índia, seu país de origem, lhe contavam sobre suas vidas no país, que vive um boom de crescimento. Um estava criando uma empresa de comércio eletrônico, outro, uma firma de relações públicas e outros uma revista, uma incubadora de negócios e um site de fofocas e eventos. "Eu ficava sentado lá ao telefone e diante do Facebook e os ouvia falar sobre essas novas empresas e sobre estarem fazendo todas essas coisas dinâmicas", recordou Kapadia, 25. "Comecei a sentir que meu trabalho das 9h às 17h já não era bom o suficiente." Ele pediu demissão do emprego e se mudou para Mumbai em 2011. Especialistas dizem que cada vez mais filhos altamente instruídos de imigrantes que se radicaram nos EUA vêm deixando o país e se mudando para os países de origem de seus pais. Eles abraçam pátrias ancestrais que seus pais rejeitaram no passado mas que hoje são potências econômicas. Alguns, como Kapadia, chegaram aos EUA quando eram crianças pequenas e ganharam cidadania americana; outros nasceram nos Estados Unidos, filhos de pais imigrantes. Americanos de espírito empreendedor sempre buscaram oportunidades no exterior. Mas esta nova onda destaca a evolução da migração global e os desafios à competitividade e à primazia econômica dos EUA. Em entrevistas, muitos desses americanos disseram não saber por quanto tempo vão viver no exterior; alguns aventaram a possibilidade de o fazerem pelo resto de suas vidas. Em muitos casos, sua decisão de partir preocupou seus pais imigrantes. Mas a maioria falou que foi impelida a isso pelo cenário desanimador dos EUA em matéria de contratações ou foi atraída pelas perspectivas em outros países. "Os mercados estão se abrindo; as pessoas apresentam ideias novas todos os dias. Há tantas oportunidades para moldar e criar", comentou Kapadia, que agora é pesquisador da Gateway House, organização de pesquisas em política externa, sediada em Mumbai. "As pessoas daqui estão correndo muito mais rápido que as pessoas em Washington." Durante gerações, os países menos desenvolvidos do mundo sofreram a chamada fuga de cérebros -a partida para o Ocidente de muitas de suas melhores cabeças. Esse movimento não parou, mas um fluxo em sentido inverso começou, especialmente em direção a países como China e Índia e, em grau menor, Brasil e Rússia. Alguns acadêmicos e empresários acham que essa emigração não é necessariamente um mau sinal para os Estados Unidos. Eles dizem que os jovens empreendedores e profissionais altamente formados semeiam habilidades e conhecimentos americanos no exterior. Ao mesmo tempo, esses profissionais ganham experiência no exterior e formam redes de contatos que podem levar de volta para os EUA ou para outros lugares, num padrão conhecido como "circulação de cérebros". Mas os especialistas alertamque, na corrida global pelos talentos, o retorno desses emigrados aos EUA e às empresas americanas não é uma aposta segura. "Essas pessoas se movimentam com agilidade; são as pessoas que, em certo sentido, seguem as oportunidades onde quer que elas apareçam", falou Demetrios G. Papademetriou, presidente do Instituto de Política Migratória, grupo sem fins lucrativos, com sede em Washington, que estuda os movimentos populacionais. "Sei que haverá quem apresente argumentos sobre lealdade", disse ele. "Sei que a lealdade é importante numa guerra. Mas esta é uma guerra de outro tipo, que afeta a todos nós." As autoridades na Índia dizem que nos últimos anos estão assistindo a um aumento acentuado na chegada ao país de pessoas de ascendência indiana. Apenas em 2010 foram pelo menos 100 mil, disse Alwyn Didar Singh, ex-alto funcionário do Ministério de Assuntos Indianos no Exterior. Muitos desses americanos conseguem tirar proveito de redes familiares, habilidades linguísticas e conhecimentos culturais aprendidos pelo fato de terem crescido em famílias imigrantes. Jonathan Assayag, 29, americano de origem brasileira que nasceu no Rio de Janeiro e foi criado no sul da Flórida, retornou ao Brasil no ano passado. Formado pela Harvard Business School, ele trabalhava numa empresa de internet no Vale do Silício e tentou criar seu próprio empreendimento, sem sucesso. "Durante cinco meses, passei meus fins de semana na Starbucks, imaginando como criar uma startup nos EUA", recordou. Ele se mudou para São Paulo e se tornou "empreendedor residente" numa firma de capital de investimento. Está abrindo um negócio de óculos on-line. "Falo a língua e entendo como as pessoas fazem negócios", comentou. Jason Y. Lee nasceu em Taiwan e foi criado nos Estados Unidos. Quando, durante a faculdade, disse a seus pais que queria visitar Hong Kong, seu pai se negou a pagar a passagem de avião. "O pensamento dele era 'trabalhei tanto para trazer você para a América e agora você quer voltar à China?'" recordou Lee, 29. Desde então, Lee abriu um negócio de importação e exportação entre os EUA e a China; estudou em Xangai; trabalhou para bancos em Nova York e Cingapura e criou na Índia um site de busca de empregos. Atualmente, trabalha para uma firma de investimentos em Cingapura. A oposição de seu pai diminuiu. A indiana-americana Reetu Jain, 36, foi criada no Texas e sentiu vontade de se mudar para a Índia quando tirou folga de seu trabalho de auditora para viajar ao exterior e sentiu a "energia criativa" no mundo em desenvolvimento. Ela e seu marido, Nehal Sanghavi, que era advogado, se mudaram para Mumbai em janeiro de 2011. Abraçando uma paixão antiga, Reetu agora trabalha como coreógrafa e professora de dança, além de ter atuado em comerciais e um filme de Bollywood. "Estamos cercados por pessoas que querem experimentar coisas novas", disse ela

Filhos ensinam técnicas, pais, a pensar

São Paulo, segunda-feira, 23 de abril de 2012 Texto Anterior | Próximo Texto | Índice | Comunicar Erros Entrevista da 2ª - Michael Rich Pais precisam se envolver com a vida de seus filhos na internet Professor de Harvard diz que, por falta de intimidade com as novas mídias, responsáveis deixam de preparar as crianças para o mundo digital MARCO AURÉLIO CANÔNICO DO RIO Atordoados com um desenvolvimento tecnológico que não conseguem acompanhar na mesma velocidade que seus filhos, os pais vêm se abstendo de prepará-los para o universo digital, deixando-os expostos a riscos. O diagnóstico é de Michael Rich, 58, professor do Centro de Mídia e Saúde Infantil da Universidade Harvard e um dos maiores especialistas americanos nas interações de crianças com mídias diversas. Ele veio ao Rio na última quinta para fazer uma palestra no 1º Encontro Internacional sobre o Uso de Tecnologias da Informação por Crianças e Adolescentes, organizado pela Universidade do Rio de Janeiro (Uerj). "Os pais precisam engolir seu orgulho e se tornar aprendizes dos filhos na parte técnica, para que possam ser seus professores na parte humana", disse Rich à Folha. Pai de quatro filhos (os mais novos têm cinco e sete anos), Rich tem um site (cmch.typepad.com/mediatrician) no qual tira dúvidas dos pais. Em entrevista à Folha, ele falou sobre como busca introduzir dados científicos em uma discussão que ainda é guiada por valores morais. Folha - As crianças estão sendo apresentadas à tecnologia cada vez mais cedo. Isso é ruim? Michael Rich - Não, mas também não é bom. O problema é que os pais dão essas ferramentas para as crianças não porque elas precisem ou saibam usar, mas por causa da pressão social e das próprias crianças. Os filhos dizem "eu quero um iPhone porque todos os meus amigos têm um". Assim como você pensa em quando deve mostrar para uma criança o que é uma serra elétrica, deveria considerar quando e como vai apresentar a televisão, a internet, os celulares. Há uma idade certa para as crianças serem apresentadas às mídias? Varia de acordo com cada mídia e cada criança. Escolhemos ferramentas diferentes dependendo da idade, do estágio de desenvolvimento e das necessidades. Temos pesquisas que mostram que, antes dos 30 meses, crianças não aprendem muito por meio de telas. Conseguem assistir e imitar o que veem, mas não identificam aquilo como uma representação de uma realidade tridimensional. O melhor software para as crianças está entre as orelhas delas: é o que se coloca na cabeça delas em termos do que elas são como pessoas e como cidadãos. O sr. diria que os pais em geral têm noção dos riscos que a exposição das crianças à tecnologia pode trazer? De modo algum. Eles não têm a menor ideia, muitas vezes porque não querem saber. Eles sentem que as crianças sabem muito mais do que eles, porque são nativos digitais, enquanto os pais são imigrantes digitais, acabaram de chegar, não falam a língua, não entendem o lugar. Os pais estão acostumados a ser os experts da família e sabem que, nesse ambiente, não o são, então decidem não comprar essa briga, apenas dão o laptop, o celular e pensam "desde que eles estejam no quarto, não vão se meter em problemas", o que é um erro. Como eles podem se envolver na vida digital de seus filhos e até que ponto devem fazê-lo? Os pais precisam se envolver com a vida digital de seus filhos tanto quanto se envolvem com a vida fora da rede. Um pai não deixaria o filho ir a uma festa em uma casa na qual não sabe se vai haver bebida, drogas, armas. Do mesmo modo, não deveria deixar o filho desacompanhado na internet. Como os pais não sentem-se confortáveis na internet como seus filhos, os egos atrapalham. Eles precisam se permitir ser os aprendizes. Precisam sentar e jogar videogame com eles, aprender a parte técnica e, aproveitando essa posição de vulnerabilidade, discutir outros temas. Mas como lidar com o fato de que os jovens sabem esconder dos pais o que fazem na internet? A educação que recebem quando crianças é fundamental, aí se formam os adolescentes que serão. É preciso construir neles respeito por si mesmos e pelos outros. Isso vai se traduzir em comportamentos saudáveis na web. Tentar policiar ou pegá-los em flagrante nunca vai funcionar, eles sempre vão conseguir contornar as regras. Os pais têm de superar a distinção que fazem entre educação, que levam muito a sério, e entretenimento, que tratam como se fosse um momento em que as crianças desligam o cérebro. Fazemos grandes esforços para mandá-los para as melhores escolas e achamos que, quando voltam e ficam jogando "Call of Duty" [um dos mais populares jogos de tiro] por três horas, não estão aprendendo nada, mas estão. Falando dos problemas da exposição de modo mais específico, quais seriam os mais frequentes? As crianças se metem em problemas porque acham que são anônimas ou não rastreáveis na internet. Fazem coisas naquele ambiente que nunca fariam pessoalmente, porque têm essa ilusão de que ninguém pode identificá-las. De uma perspectiva médica, os dois maiores problemas são a obesidade e a ansiedade. A obesidade é um problema mundial, gerado por estilos de vida pouco ativos e pelo marketing. Do lado da ansiedade, as crianças são cada vez mais pressionadas a fazer mais, conseguir mais, mais rapidamente. Nos EUA, é recorde o número das que recebem medicação psiquiátrica por problemas de déficit de atenção, ansiedade, depressão. Em sua palestra, o sr. disse que os pais não deixam que as crianças fiquem entediadas, e que isso é ruim. Por quê? O cérebro humano busca novidades, sentir e experimentar novas coisas. O problema é que, se formos constantemente estimulados pela televisão, pelos videogames e pela internet, nunca aprendemos a ser reflexivos, criativos, a buscar a novidade dentro de nós. É preciso tédio para chegar lá. Sair de casa também funciona. A natureza é um grande estimulante. Os pais deveriam proibir que os filhos usassem celulares e internet em algum momento? Conheço gente que determina uma espécie de pausa digital semanal, um dia no qual desliga tudo por 24 horas. E as famílias que fazem isso sentem-se incrivelmente libertas, porque seus membros passam a interagir, conversar uns com os outros, coisas que nunca fariam se estivessem com seus iPhones, laptops ou TVs. Há alguma mídia que tenha comprovadamente mais efeitos negativos sobre a saúde das crianças? Para problemas específicos há algumas mídias que interferem mais do que outras. Por exemplo, a televisão pode estar mais ligada à obesidade, por conta da imobilidade, e os videogames causam um aumento da ansiedade, porque você fica em um estado de adrenalina constante. Mas isso varia muito entre crianças. Esse discurso sobre os perigos das mídias pode ser sequestrado pelo discurso político mais conservador? Sem dúvida. Invariavelmente os políticos usam isso a partir de um ponto de vista moral, "as crianças não devem ver pessoas nuas, não devem ver violência", e a solução deles é restringir, censurar. Não acho que criar leis resolve a questão, o que resolve é educar.

Boa dica: www.nossasaopaulo.org.br

São Paulo, segunda-feira, 23 de abril de 2012 Texto Anterior | Próximo Texto | Índice | Comunicar Erros Oded Grajew TENDÊNCIAS/DEBATES Metas para o desenvolvimento sustentável É preciso um novo modelo de metas e indicadores: na contabilidade do PIB, não medimos o esgotamento do nosso patrimônio ambiental O atual modelo de desenvolvimento tem se mostrado totalmente insustentável. Estamos esgotando os recursos naturais (já extraímos do planeta 50% a mais do que ele á capaz de repor), matando nossos rios e mares, poluindo o ar, estrangulando as vias de circulação, baixando a qualidade de vida nas cidades e aumentando a desigualdade social mundial. A maioria dos cientistas e as evidências nos alertam que o aquecimento do planeta e as mudanças climáticas consequentes são uma real ameaça à sobrevivência da espécie humana. Este modelo insustentável de desenvolvimento foi uma escolha de governos e sociedade que privilegiou o estabelecimento de indicadores econômicos e de metas de crescimento para a economia. A avaliação de governos e países é feita prioritariamente pela variação do PIB, os números da bolsa e das moedas são anunciados a cada meia hora pelas rádios e TVs e a cada minuto pela internet. Na contabilidade que acompanha o crescimento econômico, não medimos, por exemplo, a diminuição e o esgotamento do patrimônio ambiental que alimenta nossa vida. Temos de definir um conjunto de indicadores baseados em outros princípios e valores que nos permitam ter a visão de um novo modelo de desenvolvimento e estabelecer metas que nos conduzam na direção de uma sociedade justa e sustentável. A escolha dos indicadores é fundamental, pois só podemos agir de forma consequente e cuidar daquilo que podemos conhecer e medir, até para agir preventivamente. Uma série de iniciativas pode fazer do Brasil exemplo no estabelecimento de novos indicadores e metas para o desenvolvimento sustentável. A Rede Nossa São Paulo criou o Irbem (Indicadores de Referência para o Bem Estar nos Municípios), um conjunto de indicadores de percepção que acompanha a qualidade de vida nos municípios. Foi também em São Paulo que foi introduzida, na lei orgânica do município, a obrigatoriedade de todo prefeito apresentar um plano de metas para a sua gestão que contenha todas as promessas de campanha. Todas as metas devem contemplar o desenvolvimento sustentável da cidade. Outras 27 cidades seguiram o exemplo e introduziram a mesma legislação, entre elas mais recentemente Rio e Belo Horizonte. No final do ano passado, uma série de organizações lançou o programa Cidades Sustentáveis, que visa comprometer candidatos e futuros prefeitos a estabelecer um plano de metas baseado em um conjunto de indicadores prioritários para a sustentabilidade urbana. Está em tramitação no Congresso Nacional uma proposta de emenda constitucional (PEC 52/2011) apresentada pela sociedade civil que compromete presidentes, governadores e prefeitos em todo o Brasil a apresentar um plano de metas para o desenvolvimento sustentável. Ao aprovar essa emenda, se possível até a Rio+20, o Congresso Nacional terá dado uma enorme contribuição para o desenvolvimento sustentável do país. Maiores informações sobre essas iniciativas estão no site www.nossasaopaulo.org.br. A escolha de indicadores e de metas a serem alcançadas é uma escolha política. É a escolha do modelo de desenvolvimento e da sociedade que queremos. Para termos um desenvolvimento sustentável, que tenha como fundamento a construção de uma sociedade justa e que assegure qualidade de vida para todos, para a atual e as futuras gerações, é fundamental repensarmos nossas prioridades e redirecionarmos nossos olhares. Depende de todos nós e de cada um. ODED GRAJEW, 67, empresário, é coordenador-geral da secretaria executiva da Rede Nossa São Paulo e presidente emérito do Instituto Ethos. É idealizador do Fórum Social Mundial e integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

O mundo precisa de um líder. (Ainda) são os EUA?

São Paulo, segunda-feira, 23 de abril de 2012 Texto Anterior | Próximo Texto | Índice | Comunicar Erros Marcelo Coutinho TENDÊNCIAS/DEBATES Viúvas da América Nosso tempo parece o século 19 sem o Congresso de Viena. Poucos veem que, acabando a hegemonia dos EUA, pode ir junto a liberdade. Veja a China Em "Liberal Leviathan", o professor de Princeton John Ikenberry sugere que os EUA de Obama almejam reformar as instituições internacionais preservando a sua liderança. Se isso não ocorrer, diz o autor, restariam duas possibilidades: a sociedade global multipolar, sem impérios, ou a fragmentação global, com o fim do sistema internacional aberto e guiado por regras. O mundo caminharia, assim, sobre uma tênue linha entre o paraíso e o inferno. Toda a vida social do planeta dependeria, antes de tudo, de uma solução para essa encruzilhada. Há motivos de sobra para se questionar o comando americano. Afinal, os EUA foram responsáveis por episódios lamentáveis, a começar pela América Latina. Na primeira oportunidade, lá está Washington cometendo abusos e fazendo nos lembrar porque despertam tanta rejeição. Mas poucos se dão conta de que, junto com a hegemonia americana, outras coisas também podem ruir. As liberdades políticas e econômicas, os direitos humanos, o multilateralismo e a própria ONU sobreviveriam sem os Estados Unidos? Convém evitar respostas fáceis neste momento. Qualquer ordem internacional depende em grande medida do seu criador. Não há motivos para se imaginar que agora seja diferente. As duas últimas grandes guerras ocorreram em contextos sem um "hegemon". Por outro lado, as experiências de equilíbrio de poder anteriores não são lá muito simpáticas também. Aliás, a ordem do século 21 está cada vez mais parecida com a ordem do século 19, mas sem Congresso de Viena. As teorias que tentaram se contrapor à estabilidade hegemônica ora acreditam nas instituições, ora na mudança comportamental. Um mundo feito de mais democracias, integração econômica, regimes internacionais e identidades kantianas pode, pela primeira vez, viver em paz sem um centro de governança. Apesar de tentador, esse mundo sui generis tão bonito pode não se realizar. Muita coisa pode dar errado mesmo quando se compartilha objetivos e sentimentos iguais -mais ou menos como no fim trágico de Romeu e Julieta na ficção shakespeariana. Em que pese a realidade, as teorias realistas não devem impedir que o mundo avance. Talvez o que os EUA tenham a oferecer ao Brasil seja insuficiente. Nesse caso, é preciso ter paciência. Aumentar a dependência com a China é péssima saída, ainda mais com isso acontecendo antes de Pequim se engajar definitivamente à ordem liberal. A desindustrialização impede que o Brasil seja um país mais desenvolvido. Sendo assim, o melhor a fazer é buscar convergências. Somos superestimados por Brasília e subestimados pela Casa Branca. Algo precisa ser feito para diminuir essa distorção, porque ela gera desentendimentos. A nossa política externa já esteve pior, mas ainda deve fazer a sua parte, sem complexo de vira-lata nem de superioridade. Os EUA não são mais os mesmos. E todo mundo sabe disso. O que se falta conhecer é quantos sentirão saudades da América quando o mundo não tiver mais quem pague os custos de uma ordem que, como nenhuma outra, deu mais diretos às mulheres, aos povos e aos mais fracos frente ao poder. Desatento, o Brasil corre risco de também virar uma dessas viúvas da superpotência. MARCELO COUTINHO, 37, é professor de relações internacionais da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro) Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

domingo, 8 de abril de 2012

Jornalismo de esperança » La culture banlieue dans les médias : une fabrique de clichés ?

Reporters d'Espoirs » La culture banlieue dans les médias : une fabrique de clichés ?


Elle stigmatise les peurs, focalise les clichés, ne laisse personne indifférent et pourtant elle demeure une grande inconnue, incomprise et malmenée par les médias et l’inconscient collectif. La banlieue n’a pas dit son dernier mot et s’est invitée mardi 1er mars au 32ème « Alter Mardis : Parlons solutions ». François Durpaire, historien spécialiste de la diversité et fondateur du Mouvement Pluricitoyen, Christophe Nick, journaliste et réalisateur de la série documentaire remarquée « Chroniques de la violence ordinaire », Bams, artiste, chanteuse Hip-hop, Erwan Ruty, fondateur de Ressources Urbaines et Mabrouck Rachedi, écrivain, co-auteur en 2010 de « La petite Malika ». Tous se sont interrogés sans tabou sur le concept même de « culture-banlieue », son exploitation par le prisme médiatique et sur la réalité sociale, raciale et culturelle des quartiers populaires. Animé par Marc Cheb, le rédacteur en chef de Respect Mag, le débat a offert à chacun l’opportunité d’apporter sa contribution dans un souci de mieux appréhender la richesse et les dysfonctionnements qu’elle présente. La banlieue n’est pas toujours là où on l’attend et n’est jamais celle que l’on croit !
Allumez votre poste de télévision, ouvrez les pages fait-divers et société d’un grand quotidien. Un constat éclair s’impose :la banlieue prend toute la place et répond injustement aux « doux » noms de violence, misère, discrimination, insécurité et émeutes. Comment ne pas se sentir conditionné par un discours préfabriqué et simplifié qui, par déformation professionnelle et manque de professionnalisme, tend à matérialiser et « ghettoïser » les problèmes de notre société ? La question n’est définitivement pas de savoir s’il faut ou non parler de banlieue dans les médias, mais de savoir comment le faire.
Le terme « culture banlieue » est lâché pour la première fois par Arlette Chabot au cours de l’émission politique « A vous de juger » qu’elle anime. Employer cette formule hasardeuse revient à définir un espace de vie par comparaison, par exclusion par rapport à la ville. L’exemple de la banlieue parisienne démontre que tout est banlieue hors Paris ! Plus de 90% de Franciliens s’y côtoient avec une diversité colossale et une richesse en termes d’habitat, d’activités, de population, de moyens de communication et de sociologie. La localisation géographique des personnes ne devrait en aucun cas caractériser les individus, mais plutôt ce qu’ils font.
L’enquête de Pierre Péan et Christophe Nick sur le plus puissant médium d’Europe a révélé un certain acharnement à l’encontre des quartiers populaires dans le traitement de l’information, qui ne sont recouverts qu’en termes de menaces. Erwan Ruty rappelle que les JT ont fabriqué la banlieue « ANPE » puis la « banlieue Police/justice ». Une certaine paranoïa semblerait toucher le milieu journalistique qui éprouve des difficultés à aller chercher l’information, à prendre un certain recul. Si le fondateur de Ressources Urbaines évoque aussi une certaine « lepénisation des médias », par la déferlante médiatique s’abattant sur les banlieues dès qu’il s’agit d’aborder des problèmes de violence et d’insécurité, il se félicite en revanche de constater que les thèmes des violences faites aux femmes et des discriminations squattent les débats. Les fictions, les émissions, les journaux télévisés et la sphère politique font la part belle aux origines diverses, mais pour François Durpaire, « ça n’est pas tant la représentation qui compte mais plutôt le discours. Ca n’est pas la personne de couleur lisant un prompteur qui importe, mais celle qui l’écrit.».
Les dénommées banlieues se révèlent être un vivier culturel extrêmement riche. Musiciens écrivains, artistes, tous se sentent malheureusement étiquetés. Leur art demeure réduit à leur zone géographique, comme cloisonné et le terme banlieusard ou l’expression « black, blanc, beur » les attend au tournant. Mabrouck Rachedi déplore que les médias tombent dans le cliché catastrophiste ou dans la représentation hyper positive, quant ils ne se trompent pas d’angle : « on parle souvent de l’action sociale réalisée dans les quartiers difficiles et trop peu des œuvres culturelles réalisées ». L’artiste et chanteuse Bams a souffert de l’étiquette banlieue. Les médias qui la présentent comme « l’intelligente », par la richesse des textes de ses chansons, l’ont coupée d’une partie de son public. Pas assez « ghetto » pour les gens du quartier et trop rap pour les autres, sa musique multi inspirations, pluri courants, aux influences très métissées, ne rentre pas dans un catalogue prédéfini et imposé. « En France, les gens veulent bien de notre culture, si on reste à notre place ! », conclue Bams.
Pour contrer les non-sens, les clichés et les non dits et/ou mal dits, les médias alternatifs s’imposent en montrant sans peur ni faux semblant la réalité et le quotidien des quartiers populaires, à l’image de Ressources Urbaines, agence de presse des quartiers fondée par Erwan Ruty. Le changement des mentalités passera par l’ouverture du traitement de l’information des banlieues aux banlieues.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Ocidentalismo x Orientalismo




Jovens vão às ruas de Jacarta (Indonésia) protestar contra o Dia de São Valentim (Dia dos Namorados) por ser 'anti-islâmico'